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Publicado em Zero Hora: Chegou a hora de voltar para casa

Frustração com as limitações do Congresso e as distorções do processo eleitoral, cansaço e novos projetos fazem com que o senador Zambiasi e os deputados Ibsen, Proença e Bonow desistam da reeleição.

Somados, os votos passam de 3 milhões. O acervo político tem pelo menos quatro décadas. Este é espólio sumário e mais visível que quatro gaúchos deixam ao abandonar a vida parlamentar.

O senador Sérgio Zambiasi (PTB) e os deputados federais Ibsen Pinheiro (PMDB), Germano Bonow (DEM) e Nelson Proença (PPS) desistiram da campanha deste ano e não pretendem disputar mais nenhuma eleição para cargos públicos.

No final de 2009, despedem-se de Brasília, onde Ibsen Pinheiro foi o primeiro a chegar, em 1982. O peemedebista, 74 anos, é o decano da turma que volta para casa. Retornará a Porto Alegre depois de provocar o entrevero nacional do ano com a proposta de emenda constitucional que prevê a redistribuição igualitária das riquezas do petróleo. Foi aplaudido e apedrejado. Mas prefere se recolher a permanecer num Congresso cuja capacidade de deliberar sobre assuntos relevantes teria se reduzido a zero:

– Não é desencanto, nem decepção. Não quero ser candidato. Meu nome está fora da lista.

Ibsen retornou à Câmara em 2007, com 76.165 votos. Havia sido cassado pelos próprios colegas, em pleno mandato, em 1994, sob a acusação de falta de decoro por enriquecimento ilícito e sonegação. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal. Em 2000, o STF arquivou o processo, por falta de provas. Eleito em 2006, voltou ao Congresso para o quarto mandato e para concluir que o melhor agora é deixar a Casa que presidiu entre 1991 e 1992, no auge da crise que derrubou o governo Collor. Está desconfortável:

– Votamos basicamente dois tipos de projetos, os do governo e os irrelevantes. Houve uma apropriação corporativa do processo decisório.

Dividido em sub-bancadas do agronegócio, dos bancos, da área farmacêutica, do funcionalismo e de tantos outros setores, o plenário se transformou, segundo Ibsen, na representação de “20 minorias e de nenhuma maioria”. Vota-se o que é desimportante ou o que envolve algum interesse setorial, numa troca de favores entre as minorias. As reformas política e tributária, de interesse mais amplo, não andam:

– Nada muda sem conflito, sem contrariar interesses. Mas o produto da Câmara hoje é o imobilismo. A emenda dos royalties só andou porque pegou carona no debate do marco regulatório do pré-sal, ou estaria arquivada.

Na definição de Ibsen, a vontade nacional foi pulverizada pelo fracionamento de interesses setoriais. O fenômeno teria sido ampliado nos últimos anos pelas distorções de um sistema eleitoral capaz de produzir – com o voto dado a um nome, muitas vezes desvinculado de qualquer expressão partidária –, aberrações como as votações fantásticas de insignificâncias como Paulo Maluf e os já falecidos Enéas Carneiro e Clodovil Hernandes.

A solução? Mudar o sistema de escolha, que concilie a representação partidária (o chamado voto em lista, elaborado pelo partido) e o voto distrital. Ibsen também lamenta a não aprovação do financiamento público de campanha, que eliminaria os constrangimentos das contribuições privadas para os candidatos. E se queixa da “demonização da vida pública”, com a generalização produzida pelas denúncias de má conduta propagadas pela imprensa:

– As deformações que existem no Congresso existem em toda parte, em quaisquer instituições, na vida empresarial e na vida íntima de um seminário.

O peemedebista, que participou do movimento estudantil nos anos 60, elegeu-se vereador de Porto Alegre em 1976, foi deputado estadual e conviveu em Brasília, nos anos 80, com nomes históricos do então MDB e da política nacional, pretende continuar militando pelo PMDB:

– Fiz política antes de ter mandato e agora vou fazer política sem mandato.

Eleito deputado pela primeira vez em 1990, com 51.440 votos, Nelson Proença decidiu encerrar a carreira de parlamentar no quinto mandato. Por três vezes, se elegeu pelo PMDB. Nas últimas duas eleições, chegou à Câmara pelo PPS. Em 2006, fez 53.689 votos. Em 1998, havia obtido uma votação extraordinária, ainda como peemedebista, com 156.930 votos:

– Sou deputado por 20 anos. É muito tempo. Entra-se na rotina e perde-se a motivação. Há uma tendência à acomodação. Reconheço que hoje sou menos produtivo e decidi que era a hora de parar.

Proença também faz questão de dizer que não abandona Brasília por desencanto. Mas reclama igualmente das chances perdidas pelo Congresso de fazer uma reforma eleitoral. É favorável ao voto distrital, que aproximaria o eleito das suas bases. E não acredita que nem mesmo a próxima legislatura seja capaz de mudanças nessa área.

Durante os debates sobre as possibilidades de aperfeiçoar o processo de escolha dos candidatos, o deputado percebeu que, a partir da segunda metade de uma legislatura, nada se decide de importante:

– Chega a hora de votar, e todo mundo faz a conta para saber o que é melhor para sua reeleição.

Defende a tese de que a reforma eleitoral somente será feita por Constituinte específica. Num ano de eleição, seriam escolhidos os membros do Congresso e os integrantes de uma comissão que faria as mudanças e depois se extinguiria. Aos 59 anos, o deputado deixa Brasília com outra frustração, a não aprovação do financiamento público das campanhas:

– Temos uma relação promíscua entre o financiador e o candidato. Na raiz da corrupção, está o financiamento privado das campanhas.

Empresário nas áreas de comunicação, energia e florestamento, Proença pretende se dedicar mais a um projeto que o entusiasma, o manejo racional da exploração da floresta amazônica. É dono de uma área de mata no município de Santarém, no Pará, para onde pretende viajar pelo menos uma vez por mês. Fez o inventário das árvores. As mais antigas são derrubadas, em rodízio, para que a renovação seja constante. Orgulha-se do fato de que seu projeto foi apresentado como exemplo de manejo sustentável na conferência do clima, no final do ano passado em Copenhague, na Dinamarca.

Fora do parlamento, estará disponível também para participar de entidades empresariais. Confessa:

– Me agradaria fazer política empresarial.

Em que área? Ainda não sabe, mas se considera pronto para, daqui a um ano, disputar cargos de direção em alguma das entidades do Estado, habilitado como empresário, pela experiência como parlamentar e como ex-secretário estadual do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais.

O deputado Germano Bonow, 67 anos, já definiu sua primeira missão, quando retornar a Porto Alegre. Servidor público licenciado, apresenta-se à Secretaria de Saúde do Estado e volta a trabalhar como médico sanitarista:

– Volto à ativa e devo ficar um ano e pouco, até a aposentadoria compulsória aos 70 anos.

Bonow gosta de lembrar que, antes de ser político, foi médico sanitarista na Amazônia. Formou-se em Medicina em 1968, pela Faculdade Católica de Porto Alegre, e foi trabalhar por dois anos no Hospital do Ministério da Saúde em Benjamim Constant, no Amazonas. Dez anos depois, era secretário substituto da Saúde do Rio Grande do Sul, no governo Synval Guazzelli. Por três vezes, foi titular da pasta.

A partir de 1987, elegeu-se deputado estadual por quatro vezes pelo PFL. Em 2006, obteve uma vaga na Câmara com 73.405 votos. Acredita ter fechado sua trajetória política com o mandato federal:

– Vim para Brasília pensando que a Câmara poderia ser o coroamento do meu trabalho, do meu sentimento de nacionalidade.

Pressionado no momento para ser o vice na chapa do deputado Luis Augusto Lara (PTB) ao Piratini, Bonow diz que é preciso dar espaço às novas gerações e que não sai desencantado da política:

– Não tenho mais o pique de 10 ou 15 anos atrás. Um parlamentar precisa estar sempre em contato com a população, com os municípios. Trinta anos depois não se consegue manter o mesmo ritmo.

Também lamenta ter de deixar Brasília sem ver a aprovação de uma reforma eleitoral. Acredita que a representação política somente será autêntica com partidos fortes e defende o chamado voto em lista, o mesmo proposto por Ibsen. Mesmo fora do Congresso, Bonow pretende continuar lutando pela revisão na política de saúde mental do país, especialmente no que se refere ao tratamento de dependentes químicos:

– Na questão das drogas, levantei a bandeira de que o tratamento é na área da saúde. Esta é a grande epidemia, como se vê agora com o crack. Há omissão das autoridades, que não criam leitos. Esse é um problema de saúde mental.

Bonow diz que apenas um episódio o abateu na política. Foi em 1998, quando era secretário da Saúde de Antônio Britto, e o governador perdeu, na tentativa de reeleição, para o petista Olívio Dutra:

– Aquilo foi marcante. Não conseguimos transmitir para a população que se mudaria, com a GM e a Ford, o perfil do Estado.

Mas não há nenhum arrependimento do que fez como deputado e secretário:

– Tudo tem um fim. O que vou fazer depois de me aposentar como médico do Estado? Depois, para quem está com 70 anos, é muito longe.

O senador Sérgio Zambiasi se despede da vida parlamentar como campeão de votos do Estado nas últimas duas décadas. Em 1986, quando disputou a primeira eleição para a Assembleia, obteve 365.381 votos, a maior votação da história para um deputado estadual gaúcho. Depois de quatro mandatos, em 2002, elegeu-se senador, com 2.902.120 votos:

– Desde 2008, venho defendendo a renovação do Congresso e tenho de ser coerente. É natural que abdique para que esta cadeira no Senado seja renovada.

Zambiasi entende que oito anos são “um bom tempo para um mandato”, e retorna a Porto Alegre sem queixas de Brasília. Aos 60 anos, considera-se recompensado com um trabalho aparentemente miúdo, mas importante para os municípios, quando se envolve, às vezes durante um dia inteiro, com a solução de um problema específico do Interior. Como ocorreu há poucos dias, quando tentou contribuir para uma solução do transporte coletivo entre São Borja e Santo Thomé, na Argentina:

– Trabalhei sempre em afinidade, sem atritos com os outros senadores do Rio Grande do Sul.

Zambiasi desiste do Senado sem ver a aprovação da proposta de emenda constitucional que reduz de 70 para 65 anos de idade o voto facultativo. Pela iniciativa, quem tem mais de 65 anos vota se quiser. A proposta passou pela Comissão de Constituição e Justiça, mas ainda não foi a plenário. O senador entende que é preciso uniformizar, também para fins eleitorais, o conceito de idoso.

Quando o assunto é seu futuro sem mandato, prefere silenciar, sob o argumento de que ainda está decidindo. Mas é quase certa a retomada da atividade como radialista.

Quem continua em Brasília, apesar de ter pensado em desistir, é o senador Pedro Simon (PMDB). Em discurso na tribuna, em 19 de março, Simon desabafou:

– Pensei em renunciar ao meu mandato e ainda penso.

Estava chateado com a inoperância do Congresso, com o adiamento das reformas e com a impunidade dos políticos corruptos:

– Pensei: o que estou fazendo aqui?

O ex-deputado, ex-governador e último sábio do Congresso deliberou, depois de receber e-mails com pedidos de fica, que resistirá até o final do quarto mandato de senador:

– Cheguei a pensar que, quando fizesse 80 anos, sairia fora. Mas depois decidi que deveria cumprir meu trabalho. Com 70 anos, não se pode ser juiz, professor. Eu estarei aqui até o dia 31 de janeiro de 2015, quando se encerra meu mandato. Naquele dia 31, estarei fazendo 85 anos.

Fonte: Zero Hora.

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